Qualquer coisa serve para escrever, ou para pensar. Mesmo o pormenor aparentemente mais insignificante. Um gesto que se nota, um pensamento que surge, alguém, uma pedra que seja.
Hoje surgiu-me a Rosa Lobato Faria, uma escritora cujo valor ainda não foi devidamente reconhecido. Não que não seja conhecida. É dela o texto em baixo, uma intensa ligação amorosa, um desejo, um desenho emocional Não uma biografia. Uma coisa que apetece apenas. Escrevem-se poemas de palavras feitas de estrelas, de universos de sentimentos, palavras de aproximações, palavras de alusões.
Escrevem-se biografias com fantasmas do passado ou desejos por realizar. Escrevem-se biografias novas, bonitas, poéticas, reinventando vidas. Hoje há a vida da época, da televisão, do vizinho. Já fabricada, embalada, reciclada, pronta a consumir em reminiscências poéticas. Antes do “bios”, a grafia. Poucos são os retratos reais de vidas vividas, pouco a pouco, sobrepostas na memória.
É só uma coisa que apetece. E depois tudo recomeça, mais puro, recomeça do nada, do zero.
“Ele tirou a roupa com elegância e o seu corpo nu era bem a prova da existência do deus que criou o homem ao sétimo dia e descansou. Olhou-a sem a tocar e disse, tira a pulseira, os brincos, esse fio de ouro, quero-te nua, estás cheia de símbolos de classe social e agora não és nada disso, és um bicho soberbo, felino, em pleno cio. Ela obedeceu sem tirar os olhos dos seus olhos daquele dia, e ele procurou a boca dela pelo caminho das coxas, do ventre, dos seios, dos olhos, das orelhas, purificou-se na humidade dos lábios, disse palavras tontas, cântaro, barco à vela, fada, gueisha, camélia, tangerina, iniciou o caminho de volta enquanto as mãos ensaiavam voos de gaivota pela praia, pelos ombros, as costas, as nádegas, e os dedos festejavam e dizia palavras. E o corpo dela de tocaia suspenso entre o céu e a terra, oferecendo-se àquela língua sábia, enquanto o coração, ai dele, se afogava em marés ilimitadas. A sua branca, feminina garganta navegou em todos os cambiantes do murmúrio e do grito, e na hora vermelha, solta de todas as amarras, ouviu-se dizer palavras espantosas, morde-me, inunda-me, mata-me, quero que todos saibam que sou a tua coisa, a tua fêmea, ai.”
In “Os pássaros de seda”- Rosa Lobato Faria
Poema
Quem me quiser há-de saber as conchas
a cantiga dos búzios e do mar.
Quem me quiser há-de saber as ondas
e a verde tentação de naufragar.
Quem me quiser há-de saber as fontes,
a laranjeira em flor, a cor do feno,
a saudade lilás que há nos poentes,
o cheiro de maçãs que há no inverno.
Quem me quiser há-de saber a chuva
que põe colares de pérolas nos ombros
há-de saber os beijos e as uvas
há-de saber as asas e os pombos.
Quem me quiser há-de saber os medos
que passam nos abismos infinitos
a nudez clamorosa dos meus dedos
o salmo penitente dos meus gritos.
Quem me quiser há-de saber a espuma
em que sou turbilhão, subitamente
Ou então não saber coisa nenhuma
e embalar-me ao peito, simplesmente.
Rosa Lobato de Faria
Cansaço enorme num encontro com o tempo,
Desistindo das páginas onde se escreve a paixão,
Resistindo a todos os desígneos da vontade,
Prendo-me sem querer, numa esquina inventada;
Encruzilhadas, transformando o ser humano...
Fecham-se as portas, os livros e todas as palavras
São lançadas aos ventos da eternidade;
Eis-me aqui num movimento do tempo
Nos rótulos em espiral, janelas entreabertas,
Aperto-me, de encontro a este peito vazio
Enquanto subo as escadas, ao encontro de mim...
Como o silêncio da alma, assim são meus passos
Leves, a percorrer este destino caminhante;
Nas asas levo os manuscritos da sorte,
Rascunhos da diferença entre os homens e os demais;
Na mente, breve oscilar de cortinas, um poema,
Á mercê dos meus dedos desencantados,
Óh...e não me contes mais histórias,
Já não sei ouvir o vento, nem sequer a tua voz,
E calmamente, dobro as esquinas do tempo...
FCCC Raiodesoll
03/02/2010
Em homenagem a Rosa Lobato Faria...
ABRAÇO ETERNO ROSA LOBATO


Arrancaste a palavra num folego só.
ResponderEliminarMaravilhoso o texto da Lobato, sensualidade tênue e ao mesmo tempo dilascerante.Não a conheço mas só esse texto confere-le merecimento a todas as homenagens . A musica da SAra e a imagem no fim completaram com um arremate de metre este post(a Sara , a Susana Felix e a Mafalda são as minhas cantoras prediletas)
Vou guardar esse textos na minha malinha de preciosidades.
Bjinhos
Erikah
Ela faleceu ontem.. deixou tristeza entre nós que a estimávamos e porque era um dos contributos para a nossa cultura... Merecida homenagem de facto..
ResponderEliminarLeva sim. e guarda no teu coração.
Beijos querida ErikaH... Até breve.
Não a conhecia querida, a única escritora portuguesa da atualidade que leio é a Inê Pedrosa , e adorooooo.
ResponderEliminarMeus sentimentos !
Erikah
Erro de digitação querida...dilacerante...hehehe
bjooooo
EriKaH.. Tens imensos escritores portugueses que vais adorar conhecer...
ResponderEliminarBeijo terno e obrigada pela tua presença..
Carinhos
Maria