terça-feira, 10 de novembro de 2009

FrutoProibido



Nas palavras repouso de solidão embalada
no veludo raiado pela luz que se oculta por
detrás da floresta, onde os pássaros cantam
em agudos timbres de casca de amêndoa 
 e as serpentes rastejam pelo coberto seco
 da folhagem deserta.
A natureza embala-me como o fruto proibido
 que me acolhe e de receio me deslumbro
e me enfeito no ar fresco de cores
queimadas pelo vento.

Eternum




Pintura da Doce Luana




                                                          Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre


Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"



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