sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um dia





Image by Vernon Trent



Um dia, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.



O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados irreais

E há-de voltar aos nosso membros lassos

A leve rapidez dos animais.



Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais na voz do mar

E em nós germinará a sua fala.



Sophia de Mello Breyner

2 comentários:

  1. A Sophia é divina. Fonte feita mar.
    Já devo ter-te deixado isto, já deves conhecer, mas nunca é demais de se "ouvir", como não são os silêncios das músicas das ondas:

    "Escuto mas não sei
    Se o que oiço é silêncio
    Ou deus."
    [...]

    Sophia de Mello Breyner

    Mas aqui te deixo algo que me faz sempre lembrar do teu "Silêncios": passagens de Jerusalém, do Mia Couto, que estou a ler no momento. Estas passagens ficam para ti:

    "[...] um talento para apurar silêncios.
    Escrevo bem, silêncios, no plural.
    Sim, porque não há um único silêncio.
    E todo o silêncio é música em estado de gravidez."

    ...

    Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
    - Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.
    [...]
    - Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito.

    (Mia Couto, in Jerusalém)

    Um beijo, e muito carinho.

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  2. Lindo Katy.. Palavras profundas plenas de sensibilidade.

    Obrigada pelos tesouros que me envias

    Olha.. já viste a minha foto quando eu tinha 24 anos a brincar com o meu cão na relva?? Em cima do lado direito...

    Beijinhos grandes com muito carinho

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