sábado, 7 de novembro de 2009

Quero Escrever o Borrão Vermelho de Sangue





Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.




Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.




Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.


Clarice Lispector

5 comentários:

  1. me junto a esse gritar pois tem dias assim.. em que só apetece esmurrar .. o ar !
    despir-me de preconceitos e voar nua janela fora, num 100 palavras .. para quê? tenho os dedos a colar dos bolos de cenoura que vou coleccionando..
    Recompense-se me dizia a psychiatrist.. e me estendia um pacote de guardanapos enquanto eu chorava compulsivamente.. Acabou a consulta, pois me desmanchei a rir..
    eu não existo !

    Costumo faze-lo quando de carro passo debaixo de alguma ponte .. ninguém me ouve!
    it's life !

    t3 abraço de irmã e desculpa a minha perda de tempo, deveria ter vindo mais cedo, mas tempo é um factor estranho para mim, em equação

    t3 gosto i muito

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  2. "Recompense-se me dizia a psychiatrist..."

    De resto... Acho que o Grito é a Cura para a alucinação dos momentos que nos fazem atravessar pontes "debaixo de água".. lolololo
    Adorei ler-te como sempre

    Beijos t3... em breve abraço-te

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  3. Este texto da Clarice fica sempre no ponto mais alto da minha árvore de maçãs intensamente vermelhas: tenho um pomar de poemas guardados, e este é especial...

    Deixo-te um outro no mesmo tom:

    Com rubras cores faz-se poesia.

    Quero o vermelho do olho que chora,
    Da boca, das paixões irracionais
    - Dessas incontroláveis paixões que dilatam as veias...

    Escrevo como os amantes e suas rosas
    E como os agredidos e seus hematomas.

    Minha poesia é vermelha,
    Tem a cor dos fogos
    E do urucum...

    Menstruo palavras geradas no ventre dos sentimentos;
    Lambuzo o papel com o que pulsa
    E viaja pelas artérias.

    Faço versos como quem doa:
    Sento na escrivaninha de mim
    E me espremo o coração.

    Cada letra que pinga da caneta
    É uma gota de sangue
    Transformada em tinta.

    Depois me salvo
    Pela transfusão de amores
    Que gotejam
    Na bolsa de sílabas coradas...

    Samantha Medina

    Beijo, querida Maria.

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  4. Concordo contigo.. este poema é de facto magnífico asim como a maioria dos poemas de Clarice.
    Este que me envias é de uma Intensidade física e emocional fortíssima. Gostei muito. Contudo não conheço a autora.. mais uma pérola para descobrir..
    Beijo grande querida Katy

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