Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.
Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.
Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.
Clarice Lispector

me junto a esse gritar pois tem dias assim.. em que só apetece esmurrar .. o ar !
ResponderEliminardespir-me de preconceitos e voar nua janela fora, num 100 palavras .. para quê? tenho os dedos a colar dos bolos de cenoura que vou coleccionando..
Recompense-se me dizia a psychiatrist.. e me estendia um pacote de guardanapos enquanto eu chorava compulsivamente.. Acabou a consulta, pois me desmanchei a rir..
eu não existo !
Costumo faze-lo quando de carro passo debaixo de alguma ponte .. ninguém me ouve!
it's life !
t3 abraço de irmã e desculpa a minha perda de tempo, deveria ter vindo mais cedo, mas tempo é um factor estranho para mim, em equação
t3 gosto i muito
"Recompense-se me dizia a psychiatrist..."
ResponderEliminarDe resto... Acho que o Grito é a Cura para a alucinação dos momentos que nos fazem atravessar pontes "debaixo de água".. lolololo
Adorei ler-te como sempre
Beijos t3... em breve abraço-te
Este texto da Clarice fica sempre no ponto mais alto da minha árvore de maçãs intensamente vermelhas: tenho um pomar de poemas guardados, e este é especial...
ResponderEliminarDeixo-te um outro no mesmo tom:
Com rubras cores faz-se poesia.
Quero o vermelho do olho que chora,
Da boca, das paixões irracionais
- Dessas incontroláveis paixões que dilatam as veias...
Escrevo como os amantes e suas rosas
E como os agredidos e seus hematomas.
Minha poesia é vermelha,
Tem a cor dos fogos
E do urucum...
Menstruo palavras geradas no ventre dos sentimentos;
Lambuzo o papel com o que pulsa
E viaja pelas artérias.
Faço versos como quem doa:
Sento na escrivaninha de mim
E me espremo o coração.
Cada letra que pinga da caneta
É uma gota de sangue
Transformada em tinta.
Depois me salvo
Pela transfusão de amores
Que gotejam
Na bolsa de sílabas coradas...
Samantha Medina
Beijo, querida Maria.
Concordo contigo.. este poema é de facto magnífico asim como a maioria dos poemas de Clarice.
ResponderEliminarEste que me envias é de uma Intensidade física e emocional fortíssima. Gostei muito. Contudo não conheço a autora.. mais uma pérola para descobrir..
Beijo grande querida Katy
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