quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A Arte de Ser Feliz


Fto by Joan Kocak


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre
 uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de
água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o jardim não
morresse. E eu olhava para as plantas, para o
homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e
fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas
no espelho do ar. Marimbondos que sempre me
parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes,
um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo
está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades
certas, que estão diante de cada janela, uns
dizem que essas coisas não existem, outros que
só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.


Cecília Meireles

2 comentários:

  1. “Sou entre flor e nuvem.
    Por que havemos de ser
    unicamente humanos?”

    (Cecília Meireles)

    Adoro a singeleza que há no poema que escolheste postar aqui.

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  2. É lindo este poema.. tem tudo a ver comigo... simples e ao mesmo tempo recheado de conteudo.

    Obrigada Katy...
    Beijos

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